segunda-feira, 26 de agosto de 2013

PESHITA: NOTAS DE EDIÇÃO

<<O Ambiente Lingüístico do Novo Testamento

O Oriente Próximo em geral, Jerusalém em particular, tornou-se território de trânsito para povos inteiro em migração, foi por necessidade uma linguagem multilingüística onde os habitantes falavam mais que uma língua.  Durante a vida de Jesus existiram duas linguagens locais faladas e compreendidas pela maioria da população – o Hebraico e o Aramaico – e duas linguagens “internacionais”, o Grego e o Latim, faladas por pessoas conectadas com a administração civil romana e à cultura helênica.

O Hebraico Bíblico – que foi utilizado para escrever o “Velho Testamento” – não era mais falado, seu uso dava-se apenas na liturgia das sinagogas, embora poucos pudessem compreendê-lo. Ao mesmo tempo, uma variação desse hebraico era utilizada como língua corrente, comumente chamado “a língua dos sábios” ou “hebraico rabínico”, sem formas complexas e sentenças com estruturas simples. Esse segundo tipo de hebraico foi falado continuamente em Jerusalém e na área central de Israel até o final do terceiro século D.C (da Era Comum).

Ao lado do Hebraico foi o Aramaico, durante vários séculos, o vernáculo ao longo do território de Israel. Foi falado em muitas vilas e cidades, particularmente no norte (Nazaré, Cafarnaum etc.) onde Jesus cresceu e passou a maior parte da sua vida.

O evento relatado no evangelho escrito por Lucas (no cap. 4:16-30) nos leva a entender que Jesus foi familiar ao Hebraico Bíblico, no qual leu na sinagoga de Nazaré a passagem do livro de Isaías, esse anúncio público que necessitou do seu conhecimento de Hebraico Bíblico. As poucas palavras de Jesus adicionadas como comentários podem mais provavelmente ter sido em aramaico, a linguagem usada em sermões. Os judeus nos tempos de Jesus estiveram acostumados com a “liturgia bilíngüe”. Junto a essas duas linguagens o Grego, que chegou através do helenismo, foi a língua usada como o Inglês nos dias atuais. O Latim apareceu como a linguagem dos administradores romanos desde 64 B.C (Antes da Era Comum), quando a região foi conquistada pelos romanos. Nas cidades, pessoas cultas falavam duas línguas, como é testemunhado pelas inscrições que chegaram até nós.  Em vilarejos, tal como Nazaré e Cafarnaum, a principal língua, se não a única, provavelmente era o Aramaico.

A trilíngüe inscrição em Hebraico, Latim e Grego, escrita por Pilatos, fixada na Cruz de Jesus, citando a razão pela sua execução, é uma típica mostra da pluralidade lingüística na Judéia.

O Fundo Aramaico no Novo Testamento

Os livros do Novo Testamento em Grego em muitas partes preservaram expressões do aramaico em caracteres gregos (transliteradas), assim indicando o fundo semítico. Os nomes de certas pessoas e lugares podem ser traçados até o Aramaico original, como Barjonas ou Barrabás contendo a palavra “bar”, significando filho, a palavra que era incluída na frente do nome do pai. A cidade de Cafarnaum, embora com alguma dificuldade, vem de Cafar Nahum, significando vila de Nahum ou consolação; Aceldama em Atos 1:19 vem de HaqelDema, campo de sangue. Marta em Lucas 10:38, significa mulher, e Tabita em Atos 9:36, gazela.  O apelido “Cephas” corresponde a kef em Aramaico, que significa pedra, já Kefá significa “o/a pedra”.

O mais interessante são as palavras usadas por Jesus como registraram os evangelistas. Em Marcos 7:34, ephpata é o imperativo, como o aramaico da Peshita preservou, “itpatach”, significando “abra-se”. Talita qumi, escrito em letras gregas em Marcos 5:41, é “menina, levante-se”. A citação mais longa em aramaico é o verso de Salmos 22, em Mateus 27:46 e Marcos 15:34, dito por Jesus antes de morrer na cruz. Os primeiros cristãos –  que falavam aramaico – mantiveram essas palavras em suas memórias.

Que Aramaico?

Especialistas em Aramaico distinguiram um número de dialetos falados no Oriente Próximo durante a vida de Jesus.  Um pôde reconhecer sete dialetos em sete localidades: (1) Jerusalém e no interior, como é também em Qumran; (2) Sudeste da Judeia em EinGedi; (3) Samaria; (4) Galileia; o dialeto falado por Jesus, preservado na literatura rabínica, como nos Targumim e no Talmud de Jerusalém; (5) Transjordânia, encontrado em inscrições e mosaicos; (6) vilarejos  ao norte e sul de Damasco, onde é falado até hoje em Ma’alula; (7) ao longo do Orontes em nomes de vilas, incluindo antigas inscrições do Aramaico em letras gregas. A área em que o Aramaico é falado é restrita ao presente Estado de Israel, à Palestina autônoma, ao Líbano, à Síria e à Jordânia. O número aproximado de falantes do aramaico esteve próximo de três milhões.

Até hoje há a discussão se o original texto do evangelho foi em Aramaico ou em Hebraico. De acordo com relatos antigos, Mateus escreveu o evangelho em Hebraico, senão em Aramaico. Em adição às declarações dos Pais da Igreja, há uma tradição nas versões aramaicas edessenas, em relação aos manuscritos, de fazer uma inscrição no final do primeiro evangelho que diz: “Conclusivamente, é o santo evangelho, a proclamação de Mateus, o apóstolo, que falava o Hebraico da Palestina”.

Urfa, na Turquia, é o centro de onde um dialeto do Aramaico, chamado Síriaco, espalhou-se até a Índia. Seu nome original era Orhai. Foi chamada de Edessa após a conquista Alexandre, o Magno. Antes da era Cristã, o aramaico falado em Edessa atingiu um nível de muito refinamento. Lá os sábios judeus traduziram a Bíblia Hebraica para o Siríaco. Siríaco é a palavra grega para Aramaico. Junto a esses livros os cristãos adicionaram os livros do Novo Testamento. As controvérsias cristológicas do século V levaram à separação desse específico dialeto do aramaico entre o tipo oriental e o tipo ocidental do texto. Foi preservada em sua forma mais antiga e arcaica a versão oriental, de forma escrita, pela fala de acordo com a pronúncia oriental pelos cristãos chamados Nestorianos, Assírios ou Caldeus. A forma ocidental foi mantida pelos sírios que eram chamados jacobitas. Eles tinham sua própria escrita ocidental e também sua própria pronúncia, incluindo diferenças de vogais na fala e no estilo do vocabulário, usando mais palavras gregas.

Após o Concílio da Caledônia, em 451 d.C, os cristãos ortodoxos foram chamados de melquitas pelos monofisistas jacobinos. O termo “malkaya” em Aramaico significa realista, porque os ortodoxos aderiram ao concílio convencionado pelo rei de Constantinopla. Os ortodoxos melquitas falavam e usavam a mesma forma ocidental do Siríaco, mas abandonaram após o Árabe suplantá-la. Os jacobinos monofisistas preservaram a forma ocidental do Siríaco, e muitos dos que moram na Turquia e na Síria falam uma forma moderna do Siríaco ocidental.

Neste volume, o Aramaico do Novo Testamento e sua tradução segue o texto e a pronúncia fonética da versão Oriental da Peshita em uma versão em caracteres e vogais hebraicas. Foi copiada diretamente da edição “Mosul” impressa em 1887 – 1891, e reimpressa em Beirut, no ano de 1951, com o título em Aramaico e em Latim: Biblia sacra juxta versionem simplicem quae dicitur Pschitta. Peshita significa: simples ou planície.

Versões Siríacas da Bíblia

A Peshita consiste na Bíblia inteira, incluindo os apócrifos (deuterocanônicos), e vinte dois livros do Novo Testamento. Os livros canônicos da Peshita não incluem a “antilegomena” (livros cujo os autores são discutidos), 1ª e 2ª Pedro, 2ª e 3ª João, Judas e o livro do Apocalipse. O texto canônico da Peshita não inclue Jn 7:53-8:11, nem Lucas 22:17. Essas porções foram trazidas da versão harcleânica e adicionadas nas versões modernas da Peshita. Na região judaica da Palestina em que se falava aramaico, há porções da Bíblia que foram preservadas em quatro escritos. Esses escritos incluem os Quatro Evangelhos, Atos e as epístolas, como é lido nos serviços da Igreja Ortodoxa nos domingos e nos dias santos. Um número de Salmos foi encontrado no Livro das Horas. Três outras versões são o Siríaco Antigo, o Filoxeniano e o harcleano, os quais são fragmentos. O conjunto dos Quatro Evangelhos é uma única e contínua narrativa sem repetições ou discrepâncias composta por Tatiano, depois de 165 d.C. Esse é o Diatessarom. Ele os compilou em Siríaco, de acordo com Efrém, o Sírio. O Diatessarom se tornou o texto oficial para os Cristãos em Edessa por volta do fim do século V.

      A.    Versões Completas da Bíblia

1. A Peshita (Peshito na pronúncia Ocidental) é a única versão oficial usada nas Igrejas Orientais e Ocidentais que o usam o siríaco. Ninguém sabe quando o Velho Testamento foi traduzido para o idioma siríaco, mas devido aos elementos no texto, a tradução foi feita evidentemente por judeus para as leituras semanais (parashiot) do Pentateuco nas sinagogas. A tradução do Pentateuco pode ser muito antiga. Os mais antigos manuscritos datam do século V. Desde 1996, o Instituto Peshitta de Leiden está preparando uma edição crítica da Peshita.

    2. A versão do Aramaico Palestino. No quarto e quinto séculos, os cristãos na Palestina que falavam o Aramaico tinham porções da Bíblia, senão a Bíblia completa, em seu próprio dialeto que contêm elementos hebraicos. Isso é evidente nos livros da igreja que muitos dizem ter origem Grega em adição ao aramaico. A classe administrativa falava Grego. Até 1510 d.C, os escribas de vilas que copiavam livros litúrgicos da Igreja Ortodoxa Palestina faziam a cópia para seu dialeto judaico do Aramaico. O mais antigo existente, uma cópia de três livros do evangelho para leitura, foi terminado em 1187. Os jacobitas usavam apenas o Siríaco em seus livros. Na Síria e no Líbano, a Igreja Ortodoxa Oriental usava formalmente o Siríaco antes de adotar o Árabe.

      B.     Versões do Antigo Testamento

A versão Siro-Hexapla é atribuída a Paulo – o bispo de Tella, no norte da mesopotâmia – e é um texto do Antigo Testamento, que aparentemente tem como objetivo entrar em uniformidade com a Septuaginta. É uma tradução para o Siríaco do século V. Uma revisão dessa versão siríaca foi feita por volta de 725 d.C, e é atribuída a Jacó de Edessa.

      C.    Versões do Novo Testamento

1. A versão Siríaca Antiga. Essa é a versão mais antiga em siríaco havendo dois manuscritos contendo os quatro livros do evangelho. O mais antigo data do final do século IV, encontrado no monastério de Santa Catarina no Monte Sinai. É designado como Siro-sinaítico (Sys). O primeiro manuscrito é um palimpsesto do texto subjacente do evangelho. O outro data do quinto século e foi encontrado no deserto da Nítria – Egito – por Willian Cureton, que o publicou em 1858, e ficou conhecido como Siríaco-curetoniano (Syc). Esses manuscritos representam uma tradição textual antiga.

2. Filoxeniana. Essa versão é atribuída a Policarpo um chorepiscopus de Mabbug, escrito em 507 e 508, baseado em um texto grego, devido a um pedido de Filoxênio, o Bispo de Mabbug. Essa versão não foi preservada.

3. Harcleânica. O bispo Thomas de Harqel produziu sua própria versão em 616 quando ele estava em exílio na cidade de Alexandria, e revisou radicalmente a versão Filoxeniana. Ele minuciosamente manteve a mesma seqüência de palavras do texto grego e os elementos textuais. Isso inclui um aparato de símbolo diacríticos, obeliscos e asteriscos, o significado dos quais não é claro.

Sobre Teste Volume

Na tradução para o Hebraico nesta edição nós atentamos em seguir o aramaico o mais próximo possível, chegando mesmo a “forçar” o Hebraico ao máximo. A vantagem deste dialeto oriental, é que ele divide uma morfologia comum com o Aramaico da Judéia e da Galileia daquele período. Nós esperamos que a bilingüidade sirva como uma chave direta para o contexto semítico e judaico dos livros do Novo Testamento.

Certas letras que eram pronunciadas antigamente, mas hoje não são mais, são marcadas com o sinal ( ´ ), chamado mevatlana. Depois de uma vogal curta, a letra seguinte é germinada a ela. Letras guturais, como o Resh, e sons macios como o BGD-KPT, quando podem ser geminados após vogais curtas, são marcadas com o sinal (^^). Em muitas instâncias, contudo, onde muitas letras são germinadas, isso significa que ela não é pronunciada como uma consoante no começo de uma palavra quando ela é seguida da vogal “i”. Tais palavras são pronunciadas como se fossem começadas por Álef, e pronunciadas com “i”, como em “Yisrayel” – pronuncia-se: ISRAEL. A palavra “aykh” אַיך é pronunciada como “akh”, o acento tônico está na última ou na penúltima sílaba (mil’el). Palavras terminadas em uma consoante tem o acento na última sílaba, mas não quando a penúltima vogal é longa.

A respeito da palavra “Evangelho”, apenas a palavra aramaica “sevarta” é usada nesta edição, em vez da palavra Grega (euangelion) usada pela Peshita em 27 lugares. Também, o nome Kepha é mantido como no original, e não na forma trazida do grego “Petros”, que é encontrada na Peshita Oriental em apenas três lugares: Atos 1:13, I Pedro 1:1 e 2, II Pedro 1:1. A Peshita Tanakh (Velho Testamento) também usa do Grego palavras emprestadas, tal como “Namosa”, para Torá, mas também a palavra aramaica da Orayta, para pacto (ela usa ambas).

Periodicamente, no texto aramaico, a palavra “tsechacha” צחחא aparece seguida por um número em letras hebraicas. Isso indica a divisão original do capítulo.

Bispo Jacob Varday e Professor Messimo Pazzino

Jerusalém, Agosto de 2004>>



Esta Peshita se embasa na Tradição Oriental. Está em alfabeto Hebraico, junto à sua correspondente tradução ao idioma Hebraico  infelizmente não há uma tradução para o Inglês, muito menos ao Português. É vendida, no Brasil, por R$ 85,00 (http://www.ahebraica.com.br/novo-testamento/peshitta-ah.html).








Tradutor: Felipe S. Galhardo
Autor: Caio M. F. Rodrigues 

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